MP-GO apura se padres pagavam ‘mesada’ a bispo para serem mantidos em paróquias mais lucrativas

Valor variava entre R$ 7 mil e R$ 10 mil; ação apontou desvios acima de R$ 2 milhões em esquema que envolvia paróquias no Entorno do DF. Entre os presos, estão bispo e quatro padres.

Por Sílvio Túlio, G1 GO

MP revela detalhes de suposto esquema de desvio de dinheiro de católicos de Formosa

MP revela detalhes de suposto esquema de desvio de dinheiro de católicos de Formosa

O Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO) investiga se padres pagavam uma espécie de “mesada” ao bispo de Formosa, Dom José Ronaldo, para que fossem mantidos em paróquias mais lucrativas. A Operação Caifás, deflagrada pelo órgão na segunda-feira (19), aponta que a cúpula da Igreja Católica em três cidades goianas do Entorno do Distrito Federal desviava e se apropriava de recursos oriundos de dízimos, doações e festas realizadas por fiéis.

Nove pessoas foram presas, incluindo o bispo e quatro padres, que devem começar a ser ouvidos nesta terça-feira (20). De acordo com o promotor de Justiça Douglas Chegury, responsável pela operação, uma testemunha revelou que os padres repassavam mensalmente a Dom José Ronaldo quantias que variavam entre R$ 7 mil e R$ 10 mil. O prejuízo estimado causado pelos desvios é superior a R$ 2 milhões.

“As informações que nós obtivemos é que, para permanecer nas paróquias que davam mais dinheiro, os padres pagavam uma mesada, em dinheiro, ao bispo. Um pároco, que contribuiu com as investigações, inclusive, chegou a ver esse repasse”, disse ao G1.

Chegury afirmou que, nesta situação, estão as paróquias de Posse e Planaltina, onde, além de Formosa, foram cumpridos os mandados.

Em Posse, por exemplo, foi apreendido na casa de um dos clérigos dinheiro no fundo falso de um guarda-roupa. Segundo a TV Anhanguera apurou, o montante contabilizou R$ 70 mil. A quantia estava em sacos plásticos. Além da quantia, também foram apreendidos itens como cordões de ouro e relógios.

Dinheiro foi apreendido na casa de um dos padres: MP apura 'mesada' (Foto: Reprodução) Dinheiro foi apreendido na casa de um dos padres: MP apura 'mesada' (Foto: Reprodução)

Dinheiro foi apreendido na casa de um dos padres: MP apura ‘mesada’ (Foto: Reprodução)

As apurações apontam que o grupo age desde 2015. As investigações começaram no ano passado, após denúncias de fiéis. Eles afirmaram que as despesas da casa episcopal subiram de R$ 5 mil para R$ 35 mil desde a chegada do bispo Dom José Ronaldo. Na ocasião, o clérigo negou haver irregularidades nas contas da Diocese de Formosa.

Escutas telefônicas autorizadas pela Justiça apontaram que os suspeitos compraram uma fazenda de criação de gado e uma casa lotérica com o dinheiro desviado. As aquisições, conforme o MP, também eram uma forma de lavar o dinheiro.

À TV Anhanguera, Dom José Ronaldo disse que o advogado dele ainda não teve acesso ao processo e nega envolvimento dele no caso.

A Confederação Nacional dos Bispos do Brasil disse, também à emissora, que ainda busca mais informações sobre a denúncia.

Bispo de Formosa, Dom José Ronaldo, foi preso durante operação do MP (Foto: Reprodução) Bispo de Formosa, Dom José Ronaldo, foi preso durante operação do MP (Foto: Reprodução)

Bispo de Formosa, Dom José Ronaldo, foi preso durante operação do MP (Foto: Reprodução)

Grupo suspeitava de apuração

O promotor explicou ainda que os clérigos desconfiavam da operação antes mesmo dela ocorrer. As escutas telefônicas também corroboram a tese.

Em uma conversa com um interlocutor, datada de 8 de março último, Dom José Ronaldo questiona sobre um padre ter sido chamado para prestar esclarecimentos a respeito de uma festa da igreja, cujas contas não foram prestadas.

“Igreja não tem que presta conta de festa dessas coisas para o Ministério Público”.

Em outro trecho, quatro dias depois, o bispo volta a falar sobre possíveis denúncias sobre desvios de recursos. Entre outras falas, ele alega que uma investigação “tem fundamento zero”, que “o negócio já morre no nascedouro” e que “investigação de tributos é da Justiça Federal”.

Dinheiro apreendido em fundo falso do guarda-roupa do vigário-geral de Formosa (Foto: TV Anhanguera/Reprodução) Dinheiro apreendido em fundo falso do guarda-roupa do vigário-geral de Formosa (Foto: TV Anhanguera/Reprodução)

Dinheiro apreendido em fundo falso do guarda-roupa do vigário-geral de Formosa (Foto: TV Anhanguera/Reprodução)

Operação

Além de residências e igrejas, um mosteiro também é alvo dos mandados. Além de nove de prisão, foram cumpridos outros dez de busca e apreensão.

Segundo o MP, foram apreendidas caminhonetes da cúria em nomes de terceiros, além de uma grande quantia de dinheiro em espécie, com valor ainda não foi divulgado. Conforme apurou a TV Anhanguera, dois empresários que seriam laranjas no grupo estão sendo investigados.

A suspeita é que a associação criminosa atuava na cúria da Diocese da Igreja Católica de Formosa e em outras paróquias relacionadas a ela nas outras cidades. Participaram da ação cerca de dez promotores de Justiça, além das polícias Civil e Militar.

Denúncia

Em dezembro de 2017, fiéis denunciaram que as despesas da casa episcopal de Formosa, onde o bispo mora, passaram de R$ 5 mil para R$ 35 mil desde que Dom José Ronaldo assumiu o posto, havia três anos.

“O que nós temos certeza é que as contas da cúria não fecham. Então, nós queremos a abertura pública das contas da cúria [administração da diocese] e dos gastos da casa episcopal”, disse uma fiel, que preferiu não se identificar.

Ministério Público de Goiás cumpre mandados na Igreja Católica  (Foto: MP-GO/Divulgação) Ministério Público de Goiás cumpre mandados na Igreja Católica  (Foto: MP-GO/Divulgação)

Ministério Público de Goiás cumpre mandados na Igreja Católica (Foto: MP-GO/Divulgação)

O grupo que contesta as contas informou que não recolheria o dízimo até que as medidas fossem atendidas. A diocese disse, na época, que o custo das 33 paróquias é de cerca de R$ 12 milhões por ano. Já a arrecadação, no mesmo período, é de R$ 16 milhões. O restante é destinado ao fundo de cada unidade.

Dom José Ronaldo alegou na época que não tocava no dinheiro e que não houve o pedido, por parte do grupo, para a apresentação de contas.

“Não tem nada de impropriedade. Não toco nos repasses financeiros das paróquias que são destinados à manutenção das necessidades da Diocese, casa do clero, seminário, estrutura da cúria, funcionários etc”, declarou.