Gerente nega que serviços odontológicos estejam totalmente parados em Goiânia, mas admite falta de insumos

CEI da Saúde passou a investigar o atendimento de dentistas na rede pública, após série de reportagens mostrar problemas. Vereadores pediram que a Polícia Civil apure o caso.

Por Paula Resende, G1 GO

Gerente de Saúde Bucal de Goiânia, Ana Paula Nomeline, admite falta de insumos odontológicos, mas nega paralisação dos serviços, em Goiás (Foto: Paula Resende/G1) Gerente de Saúde Bucal de Goiânia, Ana Paula Nomeline, admite falta de insumos odontológicos, mas nega paralisação dos serviços, em Goiás (Foto: Paula Resende/G1)

Gerente de Saúde Bucal de Goiânia, Ana Paula Nomeline, admite falta de insumos odontológicos, mas nega paralisação dos serviços, em Goiás (Foto: Paula Resende/G1)

A gerente de Saúde Bucal de Goiânia, Ana Paula Nomelini, prestou depoimento na tarde desta terça-feira (5) na Comissão Especial de Inquérito (CEI) da Saúde, em Goiânia. Aos vereadores, ela negou que os serviços estejam paralisados, mas admitiu que faltam insumos.

“Foram 37.644 atendimentos neste ano na rede. A gente sofre, tentei medidas, peguei materiais emprestados. Estou fazendo o que posso, tentando comprar. Não estou parada, sendo omissa”, disse.

Uma série de reportagens do Jornal Anhanguera 1ª Edição, da TV Anhanguera, mostrou uma série de problemas na rede na rede pública da capital. Entre eles a história de pacientes que arrancaram os próprios dentes por falta de atendimento. Além disso, dentistas afirmaram que estão sem receber materiais há cerca de um ano.

Após a exposição do caso, a Comissão Especial de Inquérito convocou funcionárias da prefeitura para falar sobre os problemas. Os vereadores questionam o motivo de os insumos não estarem na secretaria, visto que as homologações ocorreram em agosto

Diferentemente do que os parlamentares denunciaram na segunda-feira (4), ela alegou que a homologação das licitações não é o último passo. A gerente explicou que, depois, há certificação, reserva e emissão do pedido.

Dentistas da rede pública ficam sem poder atender pacientes por falta de material Goiânia (Foto: Reprodução/TV Anhanguera) Dentistas da rede pública ficam sem poder atender pacientes por falta de material Goiânia (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)

Dentistas da rede pública ficam sem poder atender pacientes por falta de material Goiânia (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)

Atendimento

Durante o depoimento, a gerente disse que, atualmente, 77 das 87 unidades não fazem procedimentos odontológicos em Goiânia porque não há anestésico. “São 10 unidades que possuem o insumo. As demais não estão funcionando para procedimentos”, afirmou.

Ana Paula garantiu que os produtos já foram solicitados. Eles devem ser entregues em, no máximo, 30 dias.

Relator da CEI da Saúde, o vereador Elias Vaz (PSB) avalia que o depoimento reforça a falta de planejamento para a aquisição de insumos e inexpressividade dos atendimentos.

“O dado que a gerente coloca, de 37 mil atendimentos para 370 dentistas, dá menos de meio atendimento por dia para cada profissional. Há incoerência, irresponsabilidade do poder público com uma questão tão séria”, afirma.

Investigação policial

Os vereadores que integram a CEI da Saúde pediram na tarde de segunda-feira que a Polícia Civil investigue a falta de insumos para atendimentos odontológicos em postos de saúde de Goiânia.

O pedido de abertura de inquérito foi feito na Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra a Administração Pública (Dercap). Eles apresentaram os documentos que mostram que os pedidos de insumos foram feitos em agosto, mas até agora os insumos não estão disponíveis.

Titular da Dercap, o delegado André Augusto Bottesini Jorge explicou que ainda não instaurou o procedimento porque os parlamentares precisam apresentar mais documentos.

“Foi solicitado que encaminhassem maios documentos para que eu pudesse analisar a viabilidade do inquérito. Mas, pelos fatos narrados, possivelmente será instaurado. Vamos verificar o relato para verificar se houve alguma omissão, falha no processo licitatório, verificar se trouxe prejuízo financeiro à Administração ou para os usuários”, explicou o titular da Dercap, André Augusto Bottesini Jorge.

Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia (SMS) informou na segunda-feira que “a atual gestão retomou todos os processos para compra de insumos e materiais odontológicos que não foram finalizados pela administração anterior. Assim que a situação foi identificada, novas licitações foram abertas para compra dos produtos”.

Apesar da alegação dos vereadores de que as compras já poderiam ter sido feitas, a SMS ressalta que os processos licitatórios seguem tramitação de acordo com o que determina a lei. “A atual administração da Saúde empreende todos os esforços para solucionar a questão, no entanto, precisa fazer isso dentro da legalidade que gere o serviço público. A pasta trabalha para regularizar o fornecimento e se organiza para coibir a morosidade no andamento dos processos com definições claras dos fluxos de tramitação”, informa a nota.

Anteriormente, a secretária de Saúde, Fátima Mrue, já havia explicado que o município realmente recebeu R$ 2,1 milhões para investimentos na saúde bucal da população, mas que o maior problema enfrentado era a burocracia para comprar os insumos.

Dona de casa Celina Lopes Teixeira conta ter extaído os príóprios dentes por falta de atendimento (Foto: Reprodução/TV Anhanguera) Dona de casa Celina Lopes Teixeira conta ter extaído os príóprios dentes por falta de atendimento (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)

Dona de casa Celina Lopes Teixeira conta ter extaído os príóprios dentes por falta de atendimento (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)

Pacientes desamparados

Conforme apurou a TV Anhanguera, 370 profissionais concursados recebem salários entre R$ 4 e R$ 10 mil. Porém, eles não conseguem fazer os atendimentos necessários por falta de materiais básicos.

O dentista Sidney Santos Silva contou que cumpre o horário de trabalho, mas não consegue fazer tratamentos. “Eu não posso realmente atender uma pessoa aqui. Se a gente pegar as fichas dos pacientes que chegam aqui, 90% querem é tratamento básico: cuidar de uma cárie, fazer canal, mas não tem”, esclareceu.

Segundo apuração da TV Anhanguera, um posto de saúde da capital com oito dentistas tem cerca de 300 pessoas aguardando na fila de espera há cerca de um ano. Muitos pacientes relatam que sofrem com a falta dos atendimentos.

A dona de casa Celina Lopes Teixeira contou ter arrancado os próprios dentes por não conseguir tratamento adequado. “Como estava sentindo dor, eu sabia que iria chegar lá [ao posto de saúde] e não seria atendida. Por isso eu já fui e arranquei. [Queria] arrumar meus dentes e sorrir de novo”, disse a paciente.

Sobre essa questão, a Superintendente de Atenção de Redes da SMS, Luciana Curado, disse na CEI que a paciente entrevistada pela TV Anhanguera informou à secretaria de Saúde, Fátima Mruer, que tem o costume de extrair os dentes.

“A secretaria visitou a paciente após a declaração. Ela disse que é uma prática adotada por ela há 10 anos”, contou.

A declaração da superintendente revoltou os vereadores. “Nunca imaginei que fosse chegar a esse ponto. A culpa da saúde desastrosa, criminosa é do povo? Essa é a conclusão?”, disse o presidente da CEI, vereador Clécio Alves (PMDB).

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