Fiéis de comunidade religiosa no DF vivem em ‘condições degradantes’, dizem investigadores

Por G1 DF e TV Globo

Vista aérea da igreja de onde jovem foi resgatada — Foto: Igreja Adventista Remanescente de Laodiceia/Divulgação

Vista aérea da igreja de onde jovem foi resgatada — Foto: Igreja Adventista Remanescente de Laodiceia/Divulgação

Uma operação conjunta, envolvendo auditores fiscais do trabalho, o Ministério Público Federal, o Ministério Público do Trabalho, a Polícia Civil, o Conselho Tutelar e a Secretaria de Justiça do DF cumpriu mandados de busca e apreensão na sede da Igreja Adventista Remanescente de Laodiceia, no Gama, nesta quinta-feira (7).

De acordo com os investigadores, pelo menos 95 trabalhadores da comunidade religiosa estavam em “condição degradante de trabalho e vida”. A situação é considerada, por lei, como trabalho análogo ao de escravo.

Durante a noite, os responsáveis pela defesa disseram que “As diligências policiais ainda não findaram e somente após este término e quando tivermos acesso à íntegra das denúncias, poderemos manifestar algo. A previsão de término é amanhã [sexta] ao final da tarde.”

O local, uma chácara na região do Gama, é o mesmo onde em dezembro do ano passado uma jovem de 18 anos foi resgatada por policiais após ter sido mantida por quatro meses em cárcere privado (relembre abaixo).

Ana Vindoura Dias Luz é líder espiritual na Igreja Adventista Remanescentes de Laodiceia — Foto: TV Globo/Reprodução

Os investigadores constataram que a líder da seita, Ana Vindoura Dias Luz, de 64 anos, e outros obreiros “obrigavam as vítimas a trabalharem sem receber qualquer pagamento”.

Testemunhas contaram à polícia que os fiéis vendiam pães e livros na cidade e pagavam até R$ 10 por dia para morar no local.

“A justificativa era de garantir a entrada dos fiéis no reino dos céus e a salvação de suas almas”, diz relatório da operação.

Ambiente insalubre

Com a operação, os alojamentos utilizados por cerca de 400 fiéis precisaram ser interditados. Os auditores constataram que alguns moradores dormiam em ônibus e em caminhões “mal adaptados, sujos e que expunham os indivíduos”.

Um dos alojamentos, segundo relatório, ficava ao lado de um espaço onde eram armazenados produtos agrotóxicos. Os ambientes eram separados por uma parede improvisada de papelão, “permitindo com que o cheiro dos pesticidas invadisse os dormitórios”, diz o texto.

Chácara no Gama, onde fica a Igreja Adventista Remanescentes de Laodiceia — Foto: TV Globo/Reprodução Chácara no Gama, onde fica a Igreja Adventista Remanescentes de Laodiceia — Foto: TV Globo/Reprodução

Chácara no Gama, onde fica a Igreja Adventista Remanescentes de Laodiceia — Foto: TV Globo/Reprodução

Testemunhas ouvidas pela polícia disseram que as roupas usadas pelos fiéis precisavam ser compradas dentro da comunidade, assim como a comida. Na administração, os agentes encontraram planilhas que registravam os gastos e os débitos de cada pessoa com a igreja. Os documentos foram apreendidos como provas.

Sede interditada

O ambiente de trabalho dos seguidores da seita também foi considerado “inadequado” nas áreas de confecção e costura. O relatório cita “cadeiras quebradas, sem encosto e iluminação precária”.

Já no local onde os pães são produzidos pelos fiéis, foram verificadas irregularidades nas instalações elétricas e nos equipamentos utilizados pelos trabalhadores.

Culto na Igreja Adventista Remanescentes de Laodiceia, no DF, em imagem de arquivo — Foto: Arquivo pessoal

Culto na Igreja Adventista Remanescentes de Laodiceia, no DF, em imagem de arquivo — Foto: Arquivo pessoal

Os responsáveis pela seita foram notificados e deverão rescindir os contratos de trabalho. A líder espiritual da Igreja Adventista Remanescente de Laodiceiada terá que formalizar os vínculos trabalhistas – de forma retroativa – e quitar os salários dos empregados.

Os 95 trabalhadores identificados terão direito, ainda, a receber três parcelas do benefício de seguro-desemprego. A quantia é paga em casos especiais, como ocorre quando um trabalhador é resgatado.

Jovem de 18 anos em cárcere privado

Em dezembro do ano passado, uma jovem de 18 anos foi resgatada por policiais após ter sido mantida por quatro meses em cárcere privado na seita religiosa alvo da operação desta quinta-feira.

Segundo o delegado responsável pelo caso, Vander Braga, a vítima era mantida no cativeiro por Ana Vindoura, líder da Igreja Adventista Remanescente de Laodiceia. Ela dizia que a jovem “estava endemoniada”.

“A casa era fechada pela líder espiritual, e tinha grades na janelas. Ela dizia que a menina estava endemoniada, e que precisava estudar a Bíblia.”

O caso só foi descoberto porque a própria vítima conseguiu pedir ajuda a amigos. Segundo as investigações, a jovem pegou o celular da líder da seita – enquanto a mulher dormia – e mandou mensagens de texto a dois ex-membros da comunidade.

Segundo a polícia, as denúncias contra membros da comunidade religiosa começaram a chegar em 2016, mas, por falta de provas, as investigações não foram para frente. Ainda segundo as autoridades, entre 200 a 300 pessoas foram vítimas da seita.

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