Cabral repartia obras no Rio antes do edital de licitação

Ex-governador definia empresas e líderes dos consórcios, diz delator

por Renata Mariz

O ex-governador Sérgio Cabral – Marcelo Carnaval / 26-8-2010

BRASÍLIA — Antes mesmo da publicação dos editais de licitação para grandes obras urbanas no Rio de Janeiro, o então governador Sérgio Cabral definia pessoalmente a quantidade de lotes, os consórcios que ficariam com cada um, os percentuais de participação das empresas e quem seria a líder da empreitada. A partir das diretrizes, representantes das companhias se reuniam para fazer o “acordo de mercado”, eufemismo para o jogo de cartas marcadas revelado em detalhes, inclusive com esquemas gráficos, na delação do ex-presidente de Infraestrutura da Odebrecht Benedicto Júnior.

A metodologia de Cabral foi implantada já nos primeiros meses do mandato, em 2007, com o PAC das Favelas e com o Arco Metropolitano, segundo Benedicto. No caso do Arco, porém, as definições do governador causaram desconforto entre as empresas participantes do cartel, que não se entenderam sobre qual lote cada uma executaria. Foi preciso realizar um “sorteio” para definir as participações, em reunião que contou com a presença de altos executivos de empreiteiras.

O encontro, segundo descrição de Benedicto Júnior, foi realizado em 16 de abril de 2007 na sede da Construtora Odebrecht no Rio, em Botafogo. Ele apresentou ao Ministério Público Federal o controle de acesso ao edifício do prédio para provar quem estava presente na reunião onde foram acertados os detalhes para fraudar a licitação do Arco Metropolitano.

Na ocasião, os executivos definiram as “propostas de cobertura”, ou seja, quanto cada uma apresentaria de valor para a obra na suposta concorrência, para garantir que determinado consórcio saísse vencedor com o preço mais baixo. O método da “cobertura” era usado em várias licitações que as companhias fraudaram por meio de cartel. A estratégia servia para garantir que o resultado da disputa saísse tal como planejado, sem levantar suspeitas de combinações entre os participantes.

— No momento em que defini que ia ficar na favela do Alemão, os outros dois consórcios me cobriram e eu fui cobrir os demais lotes (…) É o que chamamos de autocobertura. Como cada uma tem o seu (lote), você foge de uma competição — relatou Benedicto.

Outra engenhosidade para fraudar as licitações no Rio era a instituição de cláusulas específicas que barrassem outros interessados. Para garantir que a Odebrecht ganhasse as obras de urbanização da favela do Alemão, por exemplo, foi inserida no edital a condição de que o vencedor assumisse também o teleférico que seria criado no local. A companhia já tinha uma parceira francesa para cuidar do projeto.

 

Jogo combinado

A divisão das obras do arco metropolitano

Governador do Rio de Janeiro

(de 2007 a 2014)

SÉRGIO CABRAL

2

REUNIÃO E PROPOSTAS

1

FASE PRÉ-EDITAL

No fim de 2007 e início de 2008, houve uma reunião no escritório do secretário de Governo Wilson Carlos. Os representantes dos consórcios indicados por Cabral estavam presentes para trocar informações e combinar valores

Benedicto Júnior, em delação, afirmou que em 2007 foi informado da decisão de Cabral de como seria a obra do Arco Metropolitano: dividida em quatro lotes, cada qual a

ser executado por

um consórcio.

Cabral definiu também as empresas que liderariam cada um

dos consórcios

Governo do Estado

do Rio

Publicação

do edital

REUNIÃO COM o CARTEL

3

representantes

das empresas

QUE PARTiciparam

do sorteio

SORTEIO das obras

Como as empresas do cartel não chegaram a acordo sobre divisão de lotes, decidiu-se por um sorteio

Andrade

gutierrez

queiroz

galvão

CArioca

OAS

DELTA

odebrecht

Ricardo Beckheuser Jr. e Roque Meliande

Reginaldo Assunção e Marcelo Ribeiro

Fernando Cavendish e Dionisio Tolomei

Alberto Quintaes

Gustavo

Souza

Benedicto Junior e Celso Rodrigues

SORTEIO

4

RESULTADO desejado

O resultado da licitação confirmou que foi acordado no sorteio, atendendo a definição de Cabral

consórcios

Vencedores

Lote 1

Lote 2

Lote 3

Lote 4

Carioca e Queiroz Galvão

OAS e Camargo

Corrêa

Odebrecht e Andrade Gutierrez

Delta e Oriente

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5 comentários

  • Roberto Galo

    Viva o DEus mercado,com sua infalível mão, agora visível!!!

  • Rosa Lina de Oliveira

    Tenho 54 anos, durante todo esse tempo, vivi e convivi com várias situações na política do Brasil, porém nada se compara a que estamos vivendo agora, lembrei de uma disciplina que tinha em meus tempos de escola: “OSPB – Organização Social da Política Brasileira”. Alô eleitores de todo Brasil, 2018 vem aí, chegou a hora de colocar em prática a nossa OSPB. RENOVAÇÃO JÁ!!!!

  • Jadir Magno

    Dá nojo… é tanta sujeira que já estamos ficando anestesiados, como se nada importasse…

  • Eugenio Ferreira Ribeiro

    O que esse cara fez no Rio é digno dos piores políticos que jamais havia visto em toda a minha vida… GUILHOTINA nele!

  • Oeddy Br

    Modifiquem as APOSENTADORIAS dos Políticos!. Baixem os Salários e as Mordomias dos Políticos!. Diminuam a quantidade de Políticos em todo o Brasil em todas as Esferas!. Diminuam a quantidade de Municípios!. É Fácil, mas tem que contrariar os Políticos!. PARA QUE TANTOS POLÍTICOS e PARA QUE TANTOS MUNICÍPIOS?. O Estado Brasileiro está INCHADO de POLÍTICOS!

    • Jadir Magno

      infelizmente, os políticos não vão deixar isto acontecer e, o pior, os brasileiros vão continuar votando nos mesmos políticos corruptos de sempre

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